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Renascendo dos Escombros: O Retorno Épico de Starfall

Capítulo 1 A chuva não caía simplesmente em Manhattan esta noite. Ela martelava contra o asfalto como se tentasse partir a cidade ao meio. Lousa sentiu o impacto antes de ouvi-lo. O mundo girou violentamente para a esquerda. O metal gritou contra o metal, um som que vibrou em seus dentes e se alojou fundo em sua medula óssea. Então veio a batida. Seu sedã be**ou a grade de proteção com uma força que jogou sua cabeça contra o encosto do banco. O silêncio seguiu, pesado e sufocante, quebrado apenas pelo ritmo zombeteiro dos limpadores de para-brisa. A dor floresceu atrás de seus olhos, quente e branca. Ela piscou, tentando limpar a névoa, mas um líquido morno e pegajoso já escorria por sua têmpora, ardendo em seu olho. Ela levou a mão ao rosto, e seus dedos voltaram úmidos e escuros sob as luzes piscantes do painel. Sa**ue. O pânico, frio e intenso, rompeu o choque. Ela precisava de ajuda. Ela precisava de segurança. Sua mão, tremendo tanto que ela mal conseguia controlá-la, tateou pelo telefone no banco do passageiro. A tela estava rachada, uma teia de aranha de vidro sobre o papel de parede que ela havia definido três anos atrás - uma foto dela e de Arpão na lua de mel em Bora Bora. Ele não estava sorrindo na foto, mas ela estava. Ela pressionou a discagem rápida para "Marido". Chamou. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. O som do toque era uma tábua de salvação, um fio fino conectando-a à única pessoa que deveria protegê-la. A chamada caiu. Lousa olhou para a tela, o coração falhando uma batida. Ele devia ter apertado o botão errado. Ou talvez o sinal estivesse ruim na tempestade. Seu pe**o apertou, restringindo o ar em seus pulmões. Ela discou novamente. Desta vez, foi atendido no segundo toque. - Sra. Wilson - disse uma voz. Não era Arpão. Era suave, profissional e totalmente indiferente. Elmo, o assistente executivo de Arpão. - Elmo - Lousa grasnou. Sua voz era um sussurro quebrado. Ela tossiu, sentindo gosto de cobre. - Elmo, coloque o Arpão na linha. Por favor. - O Sr. Wilson está atualmente em uma reunião de emergência sobre a crise de relações públicas - disse Elmo. Ele parecia estar lendo um roteiro. - Ele deu instruções explícitas para não ser incomodado. - Eu... eu sofri um acidente - Lousa sussurrou. A dor em sua cabeça latejava agora, um tambor no ritmo de seu pulso acelerado. - Estou na estrada. Meu carro... tem sa**ue. Houve uma pausa do outro lado. Um som abafado, como uma mão sobre o receptor. Então, a voz de Elmo retornou, mas o tom havia mudado. Não era preocupação. Era constrangimento. - Sra. Wilson, o Sr. Wilson diz... - Elmo hesitou. - Diz o quê? - ela implorou. Lágrimas se misturavam com o sa**ue em sua bochecha. - Ele diz para parar com o teatro - disse Elmo, sua voz caindo uma oitava. - Ele disse, e eu cito: "Desligue. Diga a ela que não tenho tempo para a chantagem emocional dela esta noite." A linha ficou muda. Lousa não abaixou o telefone imediatamente. Ela o segurou no ouvido, ouvindo o zumbido oco do tom de desconexão. Era mais alto que a chuva. Mais alto que as sirenes uivando ao longe. Ele achou que ela estava mentindo. Ele achou que ela sa**rando na beira da estrada era um truque para chamar atenção. O telefone escorregou de seus dedos dormentes e caiu no tapete do carro. Ela encostou a cabeça para trás, fechando os olhos. A escuridão era convidativa. Quando os paramédicos abriram a porta, Lousa flutuava em um espaço entre a consciência e um pesadelo. Ela sentiu mãos nela, eficientes e impessoais. Eles a prenderam a uma maca. A chuva atingiu seu rosto, fria e chocante, mas ela não tremeu. Ela não sentia nada. Dentro do Pronto-Socorro, as luzes fluorescentes eram uma agressão. Um médico com olhos cansados costurou o corte em sua testa. Ela havia recusado a anestesia local. Ela precisava da ardência. Ela precisava saber que ainda estava em seu corpo, porque sua alma parecia estar pairando em algum lugar perto do teto, olhando para os destroços de sua vida. - Você tem sorte, Sra. Wilson - murmurou o médico, dando um nó. - Mais um centímetro e você teria perdido o olho. Onde está seu marido? Precisamos de alguém para assinar os papéis de alta se você quiser sair hoje à noite. - Ele está... fora da cidade - Lousa mentiu. A mentira tinha gosto de cinzas. Ela virou a cabeça para o lado. Uma televisão montada na parede transmitia notícias de entretenimento. O volume estava baixo, mas a faixa no rodapé era de um vermelho vivo. URGENTE: ARPÃO WILSON VISTO NO PLAZA COM GEMA STUART. A respiração de Lousa falhou. A filmagem era granulada, filmada através da chuva, mas inconfundível. Arpão, seu marido, estava conduzindo uma mulher pequena para uma limusine que esperava. Ele estava sem o paletó, que agora cobria os ombros da mulher para protegê-la da tempestade. O rosto dele estava voltado para a mulher. Sua expressão estava gravada com uma preocupação frenética e crua que Lousa não via dirigida a ela em quatro anos de casamento. Gema Stuart. A namorada de infância. Aquela que escapou. Aquela que estava atualmente "frágil" devido a um suposto escândalo de gr**idez. Lousa olhou para a hora na tela. A filmagem era ao vivo. No exato momento em que Lousa sangrava em seu volante, implorando por ajuda, Arpão estava envolvendo outra mulher em seu paletó. Algo dentro do pe**o de Lousa fez um som como vidro estalando. Não foi uma quebra barulhenta. Foi silenciosa, final e irreparável. Ela se sentou. O quarto girou, mas ela forçou-o a parar. - Eu mesma assino os papéis - disse ela à enfermeira que entrou com uma prancheta. - Sra. Wilson, você realmente não deveria dirigir - disse a enfermeira, olhando para o curativo. - Eu não vou dirigir. Lousa tirou o telefone da bolsa. A tela estava estilhaçada, mas ainda funcionava. Ela passou por "Marido". Passou por "Pai". Ela parou em "Sopro". Ela apertou para chamar. - Lousa? - A voz de Sopro era brilhante, cercada pelo ruído ambiente de uma sitcom na TV. - Ei, gata. Tudo bem? - Sopro - disse Lousa. Sua voz estava firme. Aterrorizantemente firme. - Preciso que você me busque no Hospital Lenox Hill. Eu bati o carro. - Que po**a é essa? - Sopro gritou. O barulho da sitcom cortou instantaneamente. - Estou indo. Estou no carro. O Arpão está aí? Coloca ele na linha, eu vou gritar com ele. - Não - disse Lousa. Ela olhou para a tela da TV, onde a limusine estava indo embora. - Ele não está aqui. E eu não vou voltar para a Cobertura. - Ok - disse Sopro, sua voz suavizando instantaneamente. - Ok, querida. Estou indo. Dez minutos. Lousa saiu do hospital vinte minutos depois. A chuva não havia parado. Encharcou sua blusa fina, gelando sua p**e, mas o frio parecia uma armadura agora. Alguns paparazzi estavam à espreita perto da entrada, esperando por uma overdose de celebridade ou um escândalo. Eles nem levantaram suas câmeras para ela. Para eles, ela não era ninguém. Apenas Lousa Graves, a esposa quieta e chata do herdeiro Wilson. A mobília. O Ford Fiesta surrado de Sopro freou bruscamente no meio-fio. Era um contraste gritante com os carros pretos elegantes aos quais Lousa estava acostumada. Era enferrujado, barulhento e lindo. Lousa entrou. O carro cheirava a batatas fritas velhas e ambientador de baunilha. Cheirava a lar. Sopro não fez perguntas. Ela apenas se esticou, agarrou a mão gelada de Lousa e a apertou com força. - Vamos para a minha casa. Tenho vi**o e pizza congelada. Lousa olhou pela janela enquanto a cidade passava como um borrão. A dor em sua cabeça era um latejar surdo agora, facilmente ignorado. Seu telefone vibrou no colo. Uma mensagem de texto de Arpão. Pare com o drama. Vá para casa. Eu lido com você amanhã. Lousa olhou para as palavras. Ontem, ela teria digitado um parágrafo de desculpas. Ela teria explicado. Ela teria implorado. Hoje, ela simplesmente apertou o botão de desligar e a tela ficou preta. Capítulo 2 O sol da manhã atingiu as janelas do chão ao teto da Cobertura com um brilho agressivo que parecia pessoal. Lousa estava no centro do quarto principal. Ela havia voltado apenas para pegar seu passaporte e seu laptop. Ela tinha dito a si mesma que não olharia. Não tocaria. Mas o quarto era um museu de sua solidão. A cama estava feita, esticada e militarmente justa pela equipe de limpeza. Mas jogado no pé dela estava um paletó cinza-carvão. O paletó de Arpão. Aquele que ele estava usando na filmagem do noticiário na noite passada. Lousa olhou para ele. Ele deve ter chegado em casa nas primeiras horas da manhã, trocado as roupas encharcadas e saído novamente antes do sol nascer. Ele nem sequer verificou se ela estava na cama. Ela caminhou até lá, seus movimentos lentos, como se estivesse se movendo na água. Ela pegou o paletó. Era pesado, feito de lã que custava mais do que os carros da maioria das pessoas. Ela o trouxe para mais perto do rosto. Sob o cheiro da colônia de sândalo de Arpão, havia outra coisa. Algo doce. Doentiamente floral. Gardênia e desonestidade. O perfume característico de Gema. Uma onda de náusea rolou por seu estômago. Ela agarrou o tecido, seus dedos ficando brancos. Algo amassou no bolso interno do pe**o. Seus dedos mergulharam, passando pelo forro de seda, e puxaram um envelope grosso de cor creme. Não era uma carta comercial. O papel era texturizado, grau médico. Ela o abriu. Era uma impressão de ultrassom. Uma imagem granulada em preto e branco de um útero. No topo, impresso em letras negritas e inegáveis: Paciente: Gema Stuart. Data: 14 de Outubro. 14 de Outubro. A respiração de Lousa falhou. Isso foi há três dias. Foi o dia em que Arpão disse a ela que estava em Boston para uma fusão de empresas. Ele até reclamou dos atrasos nos voos. Ele não estava em Boston. Ele estava segurando a mão de Gema em uma clínica de fertilidade no Upper East Side. O papel escorregou de seus dedos e flutuou até o chão, caindo com a face para cima. O pequeno saco gestacional borrado parecia a cratera de uma bomba. Lousa não chorou. Ela sentia que tinha chorado toda a umidade do corpo na sala de espera do hospital. Agora, ela só se sentia seca. Oca. O som da porta da frente sendo destrancada ecoou pelo enorme apartamento. O baque pesado da porta de carvalho se fechando. Passos, confiantes e pesados, aproximando-se do quarto. Lousa não se moveu. Ela ficou ao lado da cama, o paletó ainda em sua mão. Arpão entrou. Ele parecia impecável, como sempre. Recém-saído do banho da academia, vestindo uma camisa branca engomada, mangas dobradas até os cotovelos. Ele parou quando a viu. Seus olhos correram para o curativo em sua testa. Por uma fração de segundo, sua expressão vacilou. Um lampejo de algo - surpresa? Culpa? Mas desapareceu instantaneamente, substituído por sua máscara padrão de superioridade irritada. - Então - disse ele, passando por ela em direção à cômoda para pegar um relógio. - Você decidiu voltar. O Elmo disse que você não do**iu aqui. - Eu estava no hospital - disse Lousa. Sua voz estava quieta. Arpão zombou, prendendo o relógio. - Certo. O "acidente". Sabe, Lousa, essa história de lobo em p**e de cordeiro está ficando velha. Se você queria minha atenção, poderia ter apenas reservado um jantar como uma pessoa normal. Ele se virou para encará-la, encostando-se na cômoda, cruzando os braços. - E então? Vai explicar por que fez uma cena com meu assistente? Lousa olhou para ele. Realmente olhou para ele. Ela viu as linhas bonitas de seu rosto, o maxilar que ela costumava traçar com os dedos, os olhos que costumavam olhar para ela com de**jo. Agora, ele era um estranho. Um estranho cruel e bonito. - Como está a Gema? - ela perguntou. Arpão congelou. Sua postura endureceu perceptivelmente. - O quê? - Gema - repetiu Lousa. - Ela está saudável? O bebê está saudável? O rosto de Arpão perdeu a cor. Seus olhos dispararam para o paletó na mão dela, depois para o chão. Ele viu a imagem do ultrassom no tapete persa. O silêncio se estendeu entre eles, espesso e sufocante. - Você revistou meus bolsos - acusou ele, sua voz baixa e perigosa. Ele não negou. Ele atacou. Era o jeito dele. - Você mentiu sobre Boston - rebateu Lousa. Arpão deu um passo em direção a ela, o maxilar trincado. - É complicado, Lousa. Você não entenderia. A Gema está passando por uma crise. Ela precisava de um amigo. - Um amigo que vai às consultas pré-natais dela? - Lousa soltou uma risada curta e seca. - Você acha que sou estúpida, Arpão? Ou você simplesmente não se importa o suficiente para mentir melhor? - Ela está sozinha! - Arpão explodiu, sua voz subindo. - A mídia está acabando com ela. Ela não tem ninguém. Tenho uma responsabilidade com a família dela. Você sabe disso. - E quanto à sua responsabilidade comigo? - Lousa sussurrou. - Com sua esposa? Arpão olhou para ela com confusão genuína, como se a pergunta fosse absurda. - Você tem tudo, Lousa. Você mora em uma cobertura de dez milhões de dólares. Você tem um cartão de crédito ilimitado. Você tem o nome Wilson. O que mais você quer? - Quero um marido que não guarde o ultrassom da ex-namorada no bolso - disse ela, largando o paletó no chão. Ele caiu em cima da imagem, cobrindo a prova. - Não é meu filho - disse Arpão rapidamente. Rápido demais. - Ela só... ela queria que eu visse. Para dar apoio. - Eu não me importo - disse Lousa. E ela percebeu, com um solavanco, que era verdade. Ela não se importava se era dele ou não. A traição não era a biologia; era a prioridade. Ela se virou e entrou no enorme closet. - Onde você vai? - Arpão exigiu, seguindo-a. Lousa puxou sua mala velha e surrada da prateleira de cima. Era a que ela trouxera de seu dormitório da faculdade, antes que o dinheiro dos Wilson substituísse tudo o que ela possuía. - Estou fazendo as malas - disse ela, abrindo uma gaveta e pegando um punhado de roupas íntimas. - Não seja dramática - Arpão encostou-se no batente da porta, revirando os olhos. - Você não vai a lugar nenhum. Temos o baile de gala beneficente na semana que vem. Você tem uma prova de vestido na terça-feira. Lousa não respondeu. Ela pegou o carregador do laptop. Ela pegou o disco rígido que continha a única coisa que era verdadeiramente dela - suas demos de voz. - Lousa! - A voz de Arpão trovejou. - Pare com isso. Você está agindo como uma criança. Ela fechou o zíper da mala. Ela se levantou e o encarou. - Não estou atuando, Arpão - disse ela. - Estou indo embora. Ela passou por ele. Ele segurou o braço dela, seu aperto firme, mas não doloroso. Apenas controlador. - Se você sair por aquela porta - ele sibilou -, não volte mais. Não vou ter uma esposa que foge toda vez que sente ciúmes. Lousa olhou para a mão dele em seu braço. Então ela olhou nos olhos dele. - Eu não estou com ciúmes, Arpão - disse ela suavemente. - Eu cansei. Ela puxou o braço, libertando-se. Arpão ficou lá, atordoado, enquanto ela caminhava pelo corredor. Ele não a perseguiu. Ele era orgulhoso demais. Ele achou que ela pararia no elevador. Ele achou que ela perceberia que não tinha para onde ir. Lousa tirou uma foto do ultrassom no chão antes de sair do quarto. Apenas por precaução. Capítulo 3 Lousa não saiu imediatamente. Ela se sentou no pufe de veludo no hall de entrada, sua mala ao lado dela como um cão leal. Ela precisava fazer isso direito. Quando Arpão desceu dez minutos depois, ele estava totalmente vestido para o escritório, a gravata desfeita em volta do pescoço. Ele a viu sentada lá e soltou um suspiro de alívio que soou mais como condescendência. - Ótimo - disse ele, aproximando-se. - Você recobrou o juízo. Agora, arrume essa gravata. O nó nunca fica certo quando eu faço. Ele estufou o queixo, expondo o pescoço, esperando pelos dedos familiares dela. Era um ritual. Todas as manhãs por quatro anos. Lousa não se moveu. - Você tem mãos, Arpão. Arpão congelou. Ele virou a cabeça lentamente, olhando para ela como se o pufe tivesse começado a falar. - Como é? Lousa enfiou a mão na bolsa e tirou um documento dobrado. Era uma lista manuscrita no verso de um panfleto de alta hospitalar que ela havia rabiscado na sala de espera. Ela o colocou na mesa de console de mármore. - Precisamos falar sobre a separação - disse ela. Os olhos de Arpão se estreitaram. O alívio desapareceu, substituído por uma raiva fria e dura. - Você está abusando da sorte, Lousa. Eu te disse, não tenho tempo para joguinhos. - Não é um jogo. - Ela se levantou. - Eu quero o divórcio. A palavra pairou no ar, absorvendo o oxigênio. Arpão a encarou, depois jogou a cabeça para trás e riu. Foi um som áspero, como um latido. - Divórcio? Você? Lousa, não seja ridícula. Você estaria na rua em uma semana. Você não tem emprego. Você não tem habilidades. Você não tem nada sem mim. - Tenho minha dignidade - disse ela, embora sua voz tremesse um pouco. - E prefiro do**ir na rua do que em uma cama que cheira a ela. - Ah, cresça - Arpão retrucou. Ele se aproximou, pairando sobre ela. Ele usava sua altura como uma arma. - A Gema é uma estrela. Ela está sob imensa pressão. Ela é frágil. Você... você é apenas uma decoração. Uma decoração muito cara que meu pai comprou para me fazer parecer estável. As palavras a atingiram como golpes físicos. Decoração. Comprou. - A decoração quebrou, Arpão - disse ela, encontrando o olhar dele. - Cansei de ser seu adereço de cena. E cansei de ser a vilã na novela da Gema. - Não se atreva a falar o nome dela - avisou Arpão, apontando o dedo para ela. - Ela é pura. Ela passou pelo inferno. - Pura? - Lousa soltou uma risada incrédula. - Ela colocou uma foto de ultrassom no bolso de um homem casado. Isso não é pureza, Arpão. Isso é marcar território. O rosto de Arpão ficou de um tom violento de vermelho. Sua mão se contraiu, movendo-se instintivamente em direção ao bolso do pe**o, depois parou. Ele sabia. No fundo, ele sabia. - Saia - ele sussurrou. - O quê? - Eu disse, saia! - Ele rugiu, agarrando um vaso de cristal da mesa e arremessando-o contra a parede. Ele se estilhaçou, cacos chovendo no chão imaculado. - Você quer ir embora? Vá! Dê o fora da minha casa! Ele enfiou a mão no paletó, tirou um talão de cheques e rabiscou furiosamente. Ele arrancou o cheque e jogou nela. Ele flutuou até o chão, caindo perto dos pés dela. - Toma - ele cuspiu. - Pagamento de rescisão. Pegue e desapareça. Lousa olhou para o cheque. Estava em branco. Ele nem tinha preenchido o valor. Ele estava dizendo a ela que ela podia dar o preço para ir embora. Ela olhou para ele, vendo a raiva trêmula em suas mãos, o medo por trás de seus olhos que ele se recusava a reconhecer. Ela passou por cima do cheque. - Eu não quero seu dinheiro, Arpão - disse ela calmamente. - Eu só quero meu nome de volta. Ela agarrou a alça da mala. - Se você sair por aquela porta - gritou Arpão, sua voz falhando -, vou congelar tudo. Os cartões, as contas, as associações de clubes. Você será um fantasma nesta cidade. Lousa abriu a pesada porta da frente. O ar do corredor estava frio. - Eu já era um fantasma aqui, Arpão - disse ela. Ela jogou seu cartão-chave na mesa do console. Ele caiu com um estalo seco ao lado da lista de divórcio não assinada. Ela saiu. A porta não bateu. Ela se fechou com um clique aterrorizantemente final. Arpão ficou sozinho no hall de entrada. O silêncio era ensurdecedor. Ele olhou para o cheque em branco no chão. Ele olhou para o vaso estilhaçado. O pânico explodiu em seu pe**o, uma sensação repentina e irracional de que ele acabara de cometer um erro catastrófico. Ele pegou o telefone. Seus dedos tremiam enquanto discava para seu advogado. - Cajado - ele ladrou quando a linha conectou. - Congele as contas dela. Todas elas. Agora. Quero que ela tenha acesso zero a fundos até o meio-dia. Ele desligou e olhou para a porta, esperando. Esperando a ficha cair. Esperando que ela se virasse e batesse. Ela não bateu. Capítulo 4 Manhattan ao meio-dia era uma fera de barulho e concreto. Lousa arrastou sua mala pela 5ª Avenida. A adrenalina do confronto estava desaparecendo, substituída por uma exaustão surda e dolorosa. Sua cabeça latejava sob o curativo. Seu estômago roncou, um lembrete alto e indigno de que ela não comia desde o almoço de ontem. Ela avistou uma delicatessen na esquina. Apenas um lugar comum e indescritível com sanduíches na vitrine. Ela entrou, o cheiro de carne curada e vinagre fazendo sua boca salivar. Ela pediu um sanduíche de peru e uma garrafa de água. - Vai dar $14,50 - disse o cara atrás do balcão, sem levantar os olhos do telefone. Lousa puxou seu Amex preto. O pesado cartão de titânio que costumava abrir todas as portas da cidade. Ela o aproximou. BIP. - Recusado - disse o cara, estourando o chiclete. Lousa franziu a testa. - Tente de novo. Provavelmente é o chip. Ele passou desta vez. BIP. - Recusado, moça. Você tem outro? O rosto de Lousa queimou. Ela sentiu os olhos das pessoas na fila atrás dela - impaciência, julgamento. Ela vasculhou a carteira. O Visa. O Mastercard. BIP. BIP. - Olha, se você não pode pagar, saia da frente - disse o cara, irritado agora. As mãos de Lousa tremiam. Ela abriu o pequeno bolso com zíper de sua bolsa onde guardava trocados. Ela contou três notas de dólar amassadas e um punhado de moedas. - Eu... eu vou levar só a água - ela sussurrou. Ela colocou o dinheiro no balcão. Foi humilhante. Era o tipo de crueldade pequena e mesquinha que doía mais do que os gritos. Ela saiu apenas com a garrafa de água, o estômago doendo de fome. Seu telefone vibrou. Uma notificação do aplicativo do banco. ALERTA: Cartão Suplementar com final 8890 foi suspenso pelo Titular da Conta Principal. Seguido por uma mensagem de voz. Ela reproduziu, segurando o telefone no ouvido enquanto o trânsito rugia. A voz de Arpão era calma, quase entediada. - Com fome já? Volte para casa, peça desculpas, e eu desbloqueio. Não seja teimosa, Lousa. Não combina com você. Lousa apagou a mensagem. Ela abriu um aplicativo diferente em seu telefone. Um escondido em uma pasta chamada "Utilitários". Exigia uma varredura de retina e uma impressão digital. O aplicativo abriu. Cayman Islands Offshore Banking. Nome da conta: Lyra LLC. Saldo: $1.450.000,00. Ela não estava quebrada. Ela era rica. Ela havia economizado cada centavo de seus royalties de dublagem antes do casamento, e os resíduos que haviam entrado secretamente nos últimos quatro anos. Mas ela não podia tocar nisso. Ainda não. Se ela transferisse dinheiro agora, os contadores forenses de Arpão veriam isso na descoberta do divórcio. Eles alegariam que eram bens conjugais. Eles congelariam isso também. Ela tinha que ser pobre. Por mais um tempinho. Uma buzina tocou. O Ford Fiesta de Sopro encostou no meio-fio, parado em fila dupla ilegalmente. - Entra, perdedora! - Sopro gritou pela janela, sorrindo. - Vamos às compras. Por compras, quero dizer que vamos comer minhas sobras. Lousa entrou. Enquanto colocava o cinto de segurança, soltou uma risada. Foi um som irregular e enferrujado, mas foi real. - Ele congelou os cartões - disse Lousa. - Claro que congelou - Sopro entrou no trânsito, fechando um táxi. - Energia de pinto pequeno. - Sopro! - Lousa riu. - Ele não tem pinto pequeno. - Bem, a alma dele tem - declarou Sopro. Elas passaram pela torre da Apex Media. Era um monólito de vidro perfurando o céu. Um enorme outdoor digital envolvia o prédio, anunciando o próximo épico, A Saga do Panteão. O rosto de Gema Stuart ainda não estava no pôster, mas seu nome era rumorado em todos os blogs. Lousa olhou para o prédio. Seus olhos se estreitaram. A tristeza em seu pe**o começou a endurecer em algo mais frio, algo útil. Ambição. - Sopro - disse ela. - Seu armário ainda tem aquela espuma à prova de som que colocamos? - Sim, por quê? - Porque Starfall vai sair da aposentadoria - disse Lousa. - E eu vou tirar esse papel dela. Sopro olhou para ela, com os olhos arregalados. - A Saga do Panteão? Mas todo mundo diz que a Gema já está garantida. - Ela está garantida por causa da política - disse Lousa, vendo a torre desaparecer no espelho retrovisor. - Eu vou vencê-la com talento. O Arpão acha que estou passando fome? Ótimo. Eu atuo melhor quando estou com fome. Capítulo 5 O apartamento de Sopro no Queens era do tamanho do antigo armário de sapatos de Lousa. Cheirava a areia de gato e incenso. Lousa do**iu no sofá-cama. As molas cavaram suas costas, mas pela primeira vez em anos, ela não acordou com o maxilar trincado. Ela acordou com o som de sirenes, não com o silêncio sinistro da Cobertura. - Café - ge**u Sopro, arrastando-se para a sala de estar com pijamas enormes. Ela entregou a Lousa uma caneca que dizia Lágrimas de Macho. - É instantâneo. Foi mal. - É perfeito - disse Lousa, tomando um gole. Tinha gosto de avelãs queimadas e liberdade. Elas montaram o "estúdio". Era literalmente o closet de Sopro, forrado com caixas de ovos e cobertores pesados. Lousa montou seu microfone - um Neumann U87 que ela havia contrabandeado em sua mala embrulhado em um lenço de seda. Era a única coisa de valor real que ela havia levado, sua Excalibur. Ela poderia tê-lo vendido para pagar um hotel, mas sem ele, ela era apenas Lousa Graves, a esposa descartada. Com ele, ela era outra pessoa. Ela ligou o laptop. A conta de e-mail `starfall_vo@gmail.com` tinha 4.000 mensagens não lidas. Ela ignorou as cartas de fãs. Ela ignorou as ofertas antigas. Ela encontrou a chamada de elenco aberta para A Saga do Panteão. Personagem: Rainha Aethelgard. Descrição: Uma rainha guerreira que perdeu tudo, menos a vontade de lutar. A voz deve transmitir realeza, trauma e poder letal. Lousa colocou os fones de ouvido. O mundo desapareceu. Ela fechou os olhos. Ela pensou no acidente de carro. Ela pensou no cheque em branco. Ela pensou no ultrassom no chão. Ela abriu a boca. A voz que saiu não era Lousa, a esposa troféu. Era profunda, ressonante, texturizada com coragem e tristeza. - Você acha que pode me quebrar tirando minha coroa? - ela sussurrou no microfone, o áudio atingindo o pico perfeitamente na zona verde. - Eu não herdei este reino. Eu o construí com os ossos de homens como você. Sopro, parada na porta, deixou cair sua torrada. - P**a me**a, Lousa. Lousa gravou três tomadas. Sem aquecimento. Sem edição. Cru. Ela anexou o arquivo. Assunto: Audição - Rainha Aethelgard - Starfall. Sem currículo. Sem foto de rosto. Apenas o arquivo. Ela apertou enviar. Do outro lado da cidade, nos escritórios reluzentes da Apex Media. Trama, o lendário diretor, esfregava as têmporas. Ele estava ouvindo a fita de audição de Gema Stuart pela décima vez. Era... boa. Era tecnicamente correta. A dicção dela era perfeita. Mas era oca. Soava como uma garota rica fingindo estar triste. - É plana - ge**u Trama. - É plástico. - Mas o Sr. Wilson está pressionando muito por ela - disse seu assistente de elenco, Mike, nervosamente. - E o estúdio quer o poder da estrela. - Eu não me importo com o poder da estrela se a performance estiver morta! - Trama bateu a mão na mesa. - Verifique a caixa de entrada novamente. Tem que haver outra pessoa. - Acabamos de receber uma submissão - disse Mike, atualizando a página. - Anônima. O apelido é... Starfall. - Starfall? - Trama se animou. - A lenda urbana? Aquela que fez a narração de O Último Titã cinco anos atrás e depois desapareceu? - Provavelmente uma farsa - Mike deu de ombros. - Mas aqui está. Ele clicou em play. A voz de Lousa encheu a sala. Trama parou de respirar. Os pelos de seus braços se arrepiaram. Não era apenas uma voz; era uma atmosfera. Carregava o peso de mil guerras. Estava quebrada e inquebrável ao mesmo tempo. O clipe terminou. Trama olhou para o alto-falante. - Toca de novo. - Senhor? - Toca de novo! - Trama gritou, sorrindo como um maníaco. - É ela. Essa é a minha Rainha. - Mas não sabemos quem ela é - disse Mike. - Não me importo se ela é uma criminosa condenada - disse Trama, pegando o telefone. - Mande um e-mail para ela. Diga a ela que quero conhecê-la. Hoje. Pessoalmente. O telefone de Lousa tocou. Ela leu o e-mail de Trama. Um sorriso lento e predatório se espalhou por seu rosto. - Eles querem uma reunião - disse ela a Sopro. - Sim! - Sopro bateu na mão dela. - Mas espera... você está quebrada. Como você vai chegar lá? E o que você vai vestir? Você parece uma modelo da Gap sem-teto. Lousa olhou para suas calças de moletom. - Preciso de dinheiro. Ela foi até sua bolsa de joias. Ela tirou um par de brincos de diamante. Um presente de aniversário da mãe de Arpão, dado com o comentário: "Tente não perder esses, querida." - Vou à loja de penhores na 3ª - disse Lousa. - Aquele lugar é suspeito - avisou Sopro. - Eu estou suspeita hoje - respondeu Lousa. Na loja de penhores, o cara atrás da lupa de vidro levantou uma sobrancelha. - Estes são reais. Alta qualidade. Roubados? - Acordo de divórcio - disse Lousa secamente. Ele fez as contas em sua calculadora. - Eu te dou $18.000. Em dinheiro. Era uma fração do valor deles - as gemas eram impecáveis e valiam facilmente cinquenta - mas era o suficiente para recomeçar uma vida. Enquanto ela saía, contando as notas, uma mulher em um terno Chanel esbarrou nela. Era Orvalho Wilson. A irmã de Arpão. De todas as pessoas em Nova York. Orvalho parou, seus olhos se arregalando ao ver o sinal da loja de penhores, depois o coque bagunçado de Lousa, depois o dinheiro na mão dela. - Ai meu Deus - Orvalho riu, alto e cruel. - Lousa? Você está penhorando suas joias? Chegou a esse ponto? Ela pegou o telefone, pronta para tirar uma foto. - O Arpão disse que você estava cortando a sanguessuga, mas não achei que você ficaria na miséria tão rápido. Isso não tem preço. Lousa não se escondeu. Ela entrou no espaço pessoal de Orvalho. - Tira a foto, Orvalho - disse Lousa. - Poste. Diga a todos que os Wilson deixaram a família passar fome. Veja o que isso faz com o preço das suas ações. Orvalho hesitou, o telefone pairando. Os Wilson se importavam com a imagem acima de tudo. Uma nora na miséria era péssima publicidade. - Você é patética - zombou Orvalho, abaixando o telefone. - A Gema vai tomar o seu lugar, você sabe. Ela já está escolhendo cortinas novas para a Cobertura. - Ela pode ficar com as cortinas - disse Lousa, segurando o dinheiro. - E ela pode ficar com seu irmão. Eles merecem um ao outro. Ela se afastou, o coração martelando, mas a cabeça erguida. Ela chamou um táxi com seu próprio dinheiro. &2&
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